AVALIAÇÃO DA DOR AGUDA EM FELINOS

Pollyana Torres Rubim Ferreira Silva

Residente em Clínica Médica de Animais de Companhia no Hospital Veterinário da UFMG


A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a dano real ou potencial ao tecido; além disso, a dor em animais é uma experiência sensorial aversiva que provoca ações motoras protetoras e comportamentos para evitar o estímulo que gera a dor.2A dor aguda envolve componentes nociceptivos e inflamatórios e pode ser causada por trauma, cirurgia e condições médicas ou doenças.6


O manejo da dor é fundamental para a prática veterinária. Aliviar a dor não é apenas uma obrigação profissional, mas também um fator chave para resultados de casos de sucesso e para o aprimoramento da relação veterinário-tutor-paciente. Um compromisso com o gerenciamento da dor identifica uma clínica como aquela que está comprometida com o cuidado compassivo, com a recuperação de doenças, lesões ou cirurgias da melhor forma possível e com maior qualidade de vida.6


A dor do gato é, muitas vezes, tratada de forma ineficiente por vários motivos, mas não por falta de compaixão por parte dos cuidadores. Principalmente, é necessário reconhecer a dor nesses animais e isso apresenta um dos maiores desafios no gerenciamento da dor nos gatos. A dor é difícil de reconhecer nesta espécie pois eles não demonstram dor abertamente; indicadores de dor podem ser sutis e podem passar facilmente despercebidos, mesmo por observadores diligentes. Outras razões para o tratamento ineficaz da dor em pacientes felinos são o número limitado de analgésicos com autorização de comercialização para gatos e o medo de efeitos colaterais.11


Comportamentos de dor em gatos são frequentemente sutis, especialmente no ambiente hospitalar, onde os gatos podem mascarar sinais de dor e doença. Sinais comportamentais de dor aguda em gatos podem incluir depressão, imobilidade, permanência em uma posição curvada com a cabeça baixa, comportamentos protetores, tentativa de fuga, apertar os olhos, sibilar, rosnar e resistência à palpação ou manipulação. Esses sinais clínicos de dor são muito semelhantes aos sinais de angústia e podem ser negligenciados, com a suposição de que o gato está simplesmente nervoso ou com medo no ambiente da clínica.10


Porque os animais são não-verbais e não podem comunicar a presençade dor, o reconhecimento e a avaliação da dor cabem aos veterinários. Atualmente, é aceito que o método mais preciso para avaliar a dor em animais não é por parâmetros fisiológicos, mas por observações de comportamento. A avaliação dador deve ser um componente de rotina de cada exame físico e a pontuação de dor é considerada o "quarto sinal vital", depois da temperatura, frequência cardíaca e respiratória.6

O uso de escalas de dor para registrar a intensidade da dor é bem estabelecido para pacientes humanos e está se tornando mais comum na medicina veterinária. Há, no entanto, uma diferença fundamental: pacientes humanos podem pontuar sua própria dor nas várias escalas, enquanto a avaliação da dor em animais requer um observador. Uma variedade de escalas tem sido usada para avaliar a dor em humanos e animais. Naquelas usadas ​​para avaliar a dor em pacientes não verbais, como crianças e cães, observadores aplicam valores a vários comportamentos descritos, a soma dos quais fornece a pontuação final de dor.4 Em 2006, foi desenvolvido uma escala de avaliação de dor aguda em felinos no Colorado State University (Figura 1).7,10


Figura 1 - Escala de avaliação de dor aguda em felinos.


Fonte: Hellyer, P. W. et al, 2006.


Darwin (1872) propôs que os animais não humanos podem se expressar através da face quando ele afirmou que os animais são capazes deexpressar emoção, incluindo dor, por meio da expressão facial.5Recentemente, um interesse crescente na expressão facial se desenvolveucomo um meio possível de avaliar a dor em animais não humanos. Holden e colaboradores (2014) fizeram um estudo avaliando a expressão facial de felinos. Como resultado, uma escala de avaliação foi produzida usando a posição da orelha (a inclinação da linha que une a base da orelha e a ponta da orelha) e a forma do focinho/bochecha.8Essa escala de expressão facial foi incorporada na Escala De Glasgow Composta de Gradação de Dor em Felinos (Figura 2), que avalia a dor dos gatos com base no comportamento, postura, resposta a estímulos e expressão facial do animal. A escala tem uma gradação de 0 a 20, sendo quanto maior o valor, maior o grau de dor do felino.9


Figura 3 - Escala De Glasgow Composta de Gradação de Dor em Felinos


Fonte: Reid, J. et al, 2017.


No Brasil, também foi produzida uma escala de avaliação de dor pós-operatória em felinos. A Escala Multidimensional da UNESP-Botucatu para avaliação de dor pós-operatória em gatos apresenta 10 itens: postura, conforto, atividade, atitude, miscelânea de comportamentos, reação à palpação da ferida cirúrgica, reação à palpação do abdome/flanco, pressão arterial, apetite e vocalização. Cada item da escala é constituído por quatro níveis descritivos pontuados em 0, 1, 2 e 3, no qual “0” representa normalidade ou não alteração e “3” a mais pronunciada alteração. Os comportamentos a serem observados em cada nível descritivo estão detalhadamente explicados no instrumento, assim como as diretrizes para a avaliação. Os itens estão distribuídos em 4 dimensões ou subescalas: 1ª) Alteração Psicomotora, 2ª) Proteção da área dolorosa 3ª) Variáveis fisiológicas e 4ª) Expressão vocal da dor. 1,3


O controle eficaz da dor é um componente essencial da medicina de animais de companhia. Reduz a morbidade da doença, facilita a recuperação, melhora a qualidade de vida e solidifica o relacionamento entre o veterinário, tutor e animal de estimação. Mudanças comportamentais são o principal indicador de dor e sua resolução, para os quais existem agora vários instrumentos de pontuação clínica validados.6 Portanto, a dor deve ser identificada e tratada de forma mais precoce possível para obter maior qualidade de vida e melhor resposta ao tratamento instituído.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- Animal Pain - Avaliação da Dor em Gatos, UNESP-Botucatu. Acesso em: 29 de novembro de 2020. Disponível em: http://animalpain.com.br/pt-br/avaliacao-da-dor-em-gatos.php

2- ASSOCIATION OF VETERINARY TEACHERS AND RESEARCH WORKERS. Guidelines for therecognitionand assessment ofpain in animals. Vet. Rec., v.118, p. 334–338, 1986.

3- BRONDANI, J. T.; MAMA, K. R.; LUNA, S. P. L. et al. ValidationoftheEnglishversionofthe UNESP-Botucatu multidimensional compositepainscale for assessingpostoperativepain in cats. BMC. Vet. Res., v. 9, n. 143, 2013.

4- CAMBRIDGE, A. J.; TOBIAS, K. M.; NEWBERRY, R. C. et al. Subjectiveandobjectivemeasurementsofpostoperativepain in cats. J. Am. Vet. Med. Assoc., v. 217, n. 5, p. 685-90, 2000.

5- DARWIN, C. R. The Expression oftheEmotions in Man andAnimals. 1 ed. John Murray, London - UK, 1872.

6- EPSTEIN, M. E.; RODANM, I.; GRIFFENHAGEN, G.; et al. AAHA/AAFP pain management guidelines for dogsandcats. J. Feline Med. Surg., v. 17, n. 3, p. 251-72, 2015.

7- HELLYER, P. W.; UHRIG, S. R.; ROBINSON, N. G. FelineAcutePainScale. Colorado StateUniversityVeterinary Medical Center, 2006.

8- HOLDEN, E.; CALVO, G.; COLLINS, M. et al. Evaluationof facial expression in acutepain in cats. J. Small. Anim. Pract., v. 55, n. 12, p. 615-21, 2014.

9- REID, J.; SCOTT, E. M.; CALVO, G. et al. Definitive Glasgow acutepainscale for cats: validationandinterventionlevel. Vet. Rec., v. 180, n. 18, p. 449, 2017.

10- SHIPLEY, H.; GUEDES, A.; GRAHAM, L. et al. Preliminaryappraisalofthereliabilityandvalidityofthe Colorado StateUniversityFelineAcutePainScale. J. Feline Med. Surg., v. 21, n. 4, p. 335-339, 2019.

11- TAYLOR, P. M.; ROBERTSON, S. A. Pain management in cats--past, presentand future. Part 1. The catisunique. J. Feline Med. Surg., v. 6, n. 5, p. 313-20, 2004.

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