ENDOPARASITOSES EM CÃES E GATOS

Nathália Leijoto Pinto Lourenço


O estudo das endoparasitoses está frequentemente incluído na rotina clínica. Os helmintos e protozoários podem habitar vários sistemas no organismo de cães e gatos, influenciando negativamente na digestão e absorção dos alimentos, gerando menor aproveitamento de nutrientes, falta de apetite, perda de peso, fraqueza, pelagem sem brilho, dor e aumento de volume abdominal, vômito, diarreia, podendo progredir para anemia e óbito.

Cabe ao Médico Veterinário conhecer os aspectos da biologia desses parasitos, ser capaz de introduzir de forma consciente e eficiente o controle de infecções ativas nos animais, realizar medidas de saúde pública e atuar no controle e prevenção das parasitoses, instruindo os tutores dos animais sobre a importância dos exames periódicos, tendo em vista que diversos desses parasitos são zoonóticos. Dentre as zoonoses de importância, encontram-se a larva migrans visceral e larva migrans ocular (Toxocara spp); larva migrans cutânea (Ancylostoma spp), infecções por Dipylidium caninum e Giardíase.

Nesse texto serão abordadas as endoparasitoses que mais acometem os animais domésticos: Ancylostoma spp, Toxocara spp, Trichuris vulpis, Dipylidium caninum e Giardia lamblia.

Ancylostoma spp: As possíveis formas de infecção são oral, percutânea, transmamária e ingestão de hospedeiros paratênicos. É um parasito hematófago que em sua forma adulta habita o intestino delgado. A anemia é o sinal clínico mais evidente nessas infecções, tendo em vista que fêmeas adultas são capazes de consumir até 0,1mL por dia, podendo causar anemia de moderada a grave em caso de infecções maciças (principalmente em filhotes que contraíram por via transmamária). Além da anemia, pode-se encontrar emagrecimento, inapetência e diarreia com muco e sangue. É importante ressaltar que as larvas podem ficar em hipobiose na musculatura das fêmeas, tornando possível que elas infectem ninhadas subsequentes.

Toxocara spp: As possíveis formas de infecção são oral, transmamária, transplacentária e ingestão de hospedeiro paratênico. Em sua forma adulta habita o intestino delgado dos animais, e se alimenta de aminoácidos, vitaminas e oligoelementos dos hospedeiros, sendo esse o motivo do atraso de desenvolvimento de animais infectados. Os vermes adultos podem causar distenção abdominal, enterite catarral e obstrução intestinal, correndo o risco de perfuração, em caso de infecções maciças. Através da migração, as larvas conseguem ser passadas aos filhotes diretamente pela veia umbilical e através da amamentação.

Trichuris vulpis: Apresenta a forma oro-fecal de infecção, normalmente acometendo os cães após o desmame. Habita o ceco e cólon dos animais infectados. Infecções acentuadas podem causar distenção abdominal, diarreia com muco e sangue, e em casos mais graves prolapso retal. Seus ovos são bem resistentes ao ambiente, podendo viver por muito tempo em locais úmidos e com ausência de radiação solar, sendo viáveis por até quatro anos (FORTES, 1997).

Dippylidium caninum: A forma de infecção é oral, tendo o envolvimento da ingestão de hospedeiros intermediários, que são as pulgas do gênero Ctenocephalides sp, e piolhos do gênero Trichodectes. O parasito habita o intestino delgado do hospedeiro, e as proglotes podem ser observadas nas fezes e/ou na região perianal do animal. O animal arrasta a região anal no chão, o que indica irritação, prurido e incômodo. É uma zoonose constantemente encontrada em crianças que convivem com animais infectados.

Giardia sp: A forma de infecção é oro-fecal, envolvendo a ingestão de cistos eliminados nas fezes de outros cães portadores. O parasito se fixa no epitélio intestinal diminuindo a capacidade de absorção de nutrientes, podendo gerar diarreia que pode apresentar muco e/ou sangue e esteatorréia. É uma doença comum em ambientes coletivos em que a desinfecção ambiental é complicada.

O diagnóstico dessas doenças é importante para que o clínico tome suas decisões de tratamento, controle e prevenção no caso. Os exames parasitológicos utilizados atualmente usam recursos de sedimentação e flutuação para avaliar a presença e concentração dos elementos parasitários. O ideal é realizar a coleta de fezes frescas e acondicionar em potes para refrigeração ou em potes com conservantes (MIF) e realizar coletas seriadas para aumentar a possibilidade de visualização de ovos/oocistos dos parasitos.

O tratamento deve ser conduzido após um diagnóstico confiável, escolhendo a melhor combinação de bases farmacológicas para a eliminação daquele(s) parasito(s). Para ancilostomíase são indicados febantel, febendazol, ivermectina, mebendazol, milbeximaoxima, moxidectin ou pirantel; para toxicaríase, febantel, febendazol, ivermectina, mebendazol, milbemicinaoxima, pirantel e selamectina; para eliminação do Dipilidium caninum o tratamento é feito com praziquantel ou nitroscanato e para o tratamento de tricuríase, pode-se utilizar mebendazol, febendazol, milbemicina oxima e ivermectina. Para tratamento da giardíase preconiza-se metronidazol e/ou secnidazol.

Sabe-se que a maioria dos vermífugos comerciais presentes no mercado são uma mistura de bases, para que haja uma proteção de amplo espectro contra diversos tipos de parasitos. Deve-se atentar às doses e a idade mínima dos animais para administração segura do fármaco, a fim de evitar intoxicações.

O controle de desverminação de um cão ou gato, deve ser realizado durante todas as fases da vida. O cuidado com a saúde sanitária de um filhote, por exemplo, começa com a saúde da mãe (de forma a evitar uma transmissão transmamária e/ou transplacentária). Após realização de exames parasitológicos, sendo constatada uma infecção, as cadelas devem ser desverminadas antes da cobertura, após os 45 dias de gestação (garantindo assim que os fármacos não atrapalhem na formação do feto), e no 15º dia pós parto. Os filhotes devem ser desverminados no 15º dia, assim como a mãe, e receber pelo menos mais duas doses até o 6º mês de vida, caso haja recomendação do veterinário.

O recomendado antes da prescrição de um vermífugo é a realização de exames parasitológicos, mas infelizmente não é o que se observa na clínica. O tratamento para endoparasitos deve ser realizado de forma individualizada para os pacientes, considerando o desafio ao qual o animal é exposto pelo seu estilo de vida. Animais com maior exposição à natureza, contato com outros animais e com o meio externo, devem passar por exames e serem desverminados com maior frequência do que animais que não tem contato com meio externo e outros animais.


REFERÊNCIAS

CROZETTA, Eliane Santos Carvalho. MÉTODOS COPROPARASITOLÓGICOS MAIS COMUNS NA IDENTIFICAÇÃO DE PARASITOS INTESTINAIS: BREVE ABORDAGEM TEÓRICA. 2012.

Disponível em: http://repositorio.faema.edu.br/bitstream/123456789/253/1/CROZETTA%2C%20E.%20S.%20C.%20%20M%C3%89TODOS%20COPROPARASITOL%C3%93GICOS%20MAIS%20COMUNS%20NA%20IDENTIFICA%C3%87%C3%83O%20DE%20PARASITOS%20INTESTINAIS..%20BREVE%20ABORDAGEM%20TE%C3%93RICA.pdf. Acesso em: 06 jul. 2020.

https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/117227

http://hdl.handle.net/123456789/1658

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