Obstrução urinária em felinos

Gabrielly Bautz Milioli

Graduanda em Medicina Veterinária pela UFMG; Membro do Grupo de Estudos em Pequenos Animais da UFMG



A obstrução urinária pode ocorrer em qualquer porção do trato urinário, desde a pelve renal até a uretra, podendo ser completa ou parcial, uni ou bilateral e de ocorrência rápida ou lenta. Como principais causas dessa condição, pode-se citar: cálculos urinários, estenoses, processos inflamatórios, hiperplasia prostática, neoplasias, hérnia perineal com deslocamento de bexiga e distúrbios funcionais neurogênicos (SERAKIDES e SILVA, 2016). Em felinos, essa enfermidade ocorre predominantemente na extensão inferior do sistema urinário, caracterizada pela obstrução uretral, e é considerada um sinal clínico comum da chamada doença do trato urinário inferior dos felinos (DTUIF) (GALVÃO et al., 2010). Esse quadro é responsável por gerar dificuldade ou incapacidade do animal urinar e se torna uma emergência grave nos casos em que não há restabelecimento do fluxo urinário dentro de 48 horas (ZANOTTO, 2016).


ETIOLOGIA


A obstrução uretral pode ter origem mecânica, com localização intramural; anatômica, situada na região mural ou extramural; ou funcional. Dentre as causas intramurais predominantes estão os tampões uretrais (constituídos da agregação de mucoproteínas, cristais, glóbulos vermelhos, leucócitos e restos de tecido), urólitos e neoplasias. As causas murais e extramurais mais relevantes englobam as estenoses uretrais por edema e/ou fibrose, as lesões na glândula prostática e neoplasias, com menor frequência. Com relação à obstrução funcional, a principal razão para sua ocorrência é o aumento excessivo do tônus da musculatura do colo vesical ou da uretra em decorrência de lesão na medula espinhal (GALVÃO et al., 2010).

Um estudo realizado por Sævik et al. (2011) com 119 gatos diagnosticados com DTUIF reportou que 28,6% dos animais apresentavam a forma obstrutiva da doença. Nesse estudo, tampões uretrais e urolitíase foram responsáveis, respectivamente, por 21% e 5,06% dos casos de obstrução, evidenciando as obstruções mecânicas na casuística dessa enfermidade.

A presença de urólitos no trato urinário superior de felinos é responsável por uma parcela pequena dos casos diagnosticados, normalmente não associada à manifestação de sinais clínicos (BARTGES, 2016).

Em felinos, os compostos minerais mais encontrados na formação de cristais e urólitos são oxalato de cálcio e fosfato de amônio magnesiano (estruvita) (GALVÃO et al., 2010). Segundo Labato (2017), cerca de 46% dos urólitos em felinos são compostos por estruvita e 41% por oxalato de cálcio.




Figura 1: Composição mineral de urólitos felinos - dados de 2013 provenientes do Minnesota Urolith Center. CaOx (oxalato de cálcio), CaPO4 (fosfato de cálcio), MAP (fosfato de amônio magnésio - estruvita). Fonte: Labato (2017), cap. 332, pag. 4837.


FISIOPATOGENIA


Em decorrência da obstrução uretral, ocorre aumento da pressão intravesical devido ao acúmulo de líquido na bexiga, o que leva ao retorno ascendente da urina aos rins (GALVÃO et al., 2010). Como consequência disso, a pressão interna da Cápsula de Bowman pode se intensificar e se tornar maior que a pressão de filtração glomerular, comprometendo o processo de filtração e gerando insuficiência renal aguda (IRA) pós-renal (ZANOTTO, 2016).

Com a instalação do quadro de insuficiência, os rins passam a apresentar incapacidade de promover a reabsorção e a excreção de água, eletrólitos e compostos nitrogenados, resultando em desequilíbrios hídricos e eletrolíticos, acidose metabólica e azotemia (GALVÃO et al., 2010).

Além disso, esses pacientes geralmente demonstram diminuição no consumo de água e perdas hídricas por vias não renais, através de vômitos e diarreia, podendo provocar quadros de desidratação, hipovolemia e, consequentemente, hipotensão. Em resposta à hipotensão, a arteríola renal aferente sofre vasoconstrição, levando à diminuição da perfusão renal e ao agravamento da queda na taxa de filtração glomerular (ZANOTTO, 2016).


EPIDEMIOLOGIA E FATORES DE RISCO


A obstrução uretral é uma condição frequente entre felinos que apresentam doença do trato urinário inferior dos felinos. Em um estudo realizado no Hospital Veterinário da Universidade Federal do Piauí, entre 2015 a 2018, relatou-se que dos 303 gatos atendidos com DTUIF 68,6% tinham como queixa principal a obstrução urinária (FONSECA, 2019), demonstrando a grande relevância que essa afecção possui na rotina clínica de felinos.

Com relação à incidência entre os sexos, diversos estudos apontam que a obstrução uretral em gatos machos é mais recorrente. (DORSCH et al., 2014; FONSECA, 2019; LEW-KOJRYS et al., 2017; SÆVIK et al., 2011). A principal razão da predisposição de machos à obstrução é a anatomia longa e estreita de sua uretra em comparação à uretra de fêmeas (OLIVEIRA, 1999).

Segev et al. (2011), expõe o consumo de dietas exclusivamente secas como um possível fator de risco. Esse fato deve-se ao hábito natural dos gatos em ingerirem pouca água, visto que possuem origem desértica, o que favorece a produção de uma urina muito concentrada e contribui para a formação de urólitos e cristais (GALVÃO et al., 2010).

O estresse também é citado na literatura como possível indutor de mudanças no consumo de água e de alimentos e está relacionado à ocorrência de quadros de cistite idiopática felina (CIF) e de formação de urólitos (SAMPAIO et al., 2020). Quando crônico, o estresse pode desencadear uma resposta anormal em felinos susceptíveis à CIF, gerando supressão das respostas adrenocorticais, aumento da estimulação sensorial da vesícula urinária e alteração da permeabilidade urotelial. O estresse percebido promove a liberação de hormônio liberador de corticotrofinas (CRH) pelo hipotálamo. Essa substância atua na glândula pituitária, fazendo com que ocorra a liberação de hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) e a consequente produção de corticosteróides, e proporciona a ativação do sistema nervoso simpático (SNS) pelos núcleos do tronco cerebral, gerando produção de catecolaminas (norepinefrina e epinefrina). Em gatos saudáveis, os corticosteróides possuem efeito de feedback negativo no hipotálamo, hipófise anterior e tronco cerebral. No entanto, em felinos com CIF, observa-se que o SNS excitatório não é reprimido de maneira adequada pelos corticosteróides, ocasionando uma atividade simpática intensificada. Em decorrência disso, acredita-se que a permeabilidade do tecido da bexiga é elevada, gerando aumento da atividade aferente sensorial no órgão e ocasionando sinais clínicos típicos de CIF, que tem a obstrução como uma das alterações frequentemente observadas pelos tutores (FORRESTER; TOWELL, 2015).


SINAIS CLÍNICOS


Os sinais clínicos decorrentes da obstrução urinária em felinos dependem da duração e do grau do quadro obstrutivo (GALVÃO et al., 2010). De modo geral, esses pacientes apresentam uma variedade de sinais habituais da doença do trato urinário inferior dos felinos, como polaquiúria, estrangúria, hematúria, periúria e disúria. Em adição, gatos obstruídos podem manifestar sinais multissistêmicos de uremia, como vômitos, anorexia e obtundação (BARTGES, 2017), bem como lambedura excessiva do órgão genital, vocalização e relutância em andar (ZANOTTO, 2016).


DIAGNÓSTICO


O diagnóstico é obtido considerando os sinais clínicos e histórico apresentados pelos animais, exame físico, exames laboratoriais e exames de imagem, como radiografia e ultrassonografia (GALVÃO et al., 2010).

No exame físico de felinos com obstrução uretral é comum que a vesícula urinária se apresente distendida, estando de duas a cinco vezes maior que seu tamanho normal, o que ocasiona grande desconforto ao animal. Dessa maneira, durante sua palpação, é necessário cautela com a pressão exercida para que se evite ruptura (PAULUK, 2008; ZANOTTO, 2016). Em casos de obstrução prolongada, os pacientes podem apresentar hipotermia, bradicardia e sinais multissistêmicos de uremia, além de fraqueza generalizada e arritmias cardíacas em decorrência do quadro de hipercalemia, que pode ser desenvolvido em períodos longos de obstrução. Além disso, um sinal clínico comum em machos é a hiperemia e edemaciação do pênis devido à lambedura excessiva (ZANOTTO, 2016).

Através da ultrassonografia é possível observar o espessamento da parede da bexiga urinária, a ocorrência de hidroureter e hidronefrose e a presença de sedimentos urinários, coágulos sanguíneos luminais e urólitos. As radiografias simples também podem auxiliar no diagnóstico de obstrução por cálculos, porém, urólitos menores que três milímetros de diâmetro são identificados apenas pela técnica radiográfica contrastada, que possibilita também a visualização de massas, persistência do úraco, coágulos sanguíneos e estenoses (SAMPAIO et al., 2020).

Os achados laboratoriais séricos mais comuns são hiperproteinemia, hipercalcemia, hiperfosfatemia, hipermagnesemia, hipercolesterolemia, acidose metabólica e creatinina, uréia e outros catabólicos de proteína com níveis aumentados. Nesses casos, a urinálise é indicada para a investigação de proteinúria, hematúria, presença de infecção bacteriana e identificação dos tipos de cristais possivelmente encontrados (GALVÃO et al., 2010). Em associação à urinálise, é recomendado realizar urocultura quando existe presença de infecção, principalmente em animais mais velhos, com o intuito de identificar o agente e estabelecer uma conduta terapêutica adequada (SAMPAIO et al., 2020).


TRATAMENTO


Devido a possibilidade de evolução para óbito, o tratamento de obstrução urinária deve possuir caráter emergencial e ter como base o alívio da obstrução, correção dos distúrbios hidroeletrolíticos e dos efeitos sistêmicos da uremia, analgesia e prevenção de sua recidiva. (GALVÃO et al., 2010; SAMPAIO et al., 2020).

Em casos de oclusão mecânica, a desobstrução do lúmen da uretra e a descompressão da bexiga podem ser realizados por passagem de catéter de diâmetro reduzido, massagem peniana, cistocentese, movimentação de cálculos uretrais através da introdução de líquido pela uretra e uretrostomia de emergência (ROSA et al., 2011).

A cistocentese descompressiva consiste em uma técnica que, além de promover alívio ao paciente, pode provocar o deslocamento de tampões e urólitos para o interior da vesícula urinária, diminuindo a pressão intra-uretral. Pode também ser utilizada para a coleta de urina estéril, proporcionando amostras não contaminadas para a urocultura. No entanto, em casos de animais com o histórico de urina muito avermelhada, esse procedimento não é indicado, visto que esse achado é sugestivo de desvitalização tecidual do órgão, o que favorece a ocorrência de ruptura no momento de introdução da agulha (GALVÃO et al., 2010).

O emprego imediato da fluidoterapia também é de extrema importância, visto que gatos obstruídos podem apresentar diferentes graus de distúrbios hidroeletrolíticos, azotemia e necessidade de repor o volume vascular. Como solução de escolha para a reposição de fluidos, recomenda-se o Ringer com lactato, que consiste em uma solução cristalóide isotônica, com balanceamento de eletrólitos e composição semelhante ao líquido extracelular, possuindo pH 6,5. Soluções de Cloreto de sódio 0,9% e Ringer simples devem ser evitadas pelo fato de serem acidificantes, o que pode ocasionar piora no quadro de acidose metabólica (ZANOTTO, 2016).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


1. BARTGES, Amanda Callens and Joseph W. Update on Feline Urolithiasis. In: LITTLE, Susan E. August's Consultations in Feline Internal Medicine. St. Louis: Elsevier, 2016. v. 7, cap. 51, p. 499-508. ISBN 978-0-323-22652-3.


2. BARTGES, Joseph W. Urethral Diseases: In: ETTINGER, Stephen J. et al. Textbook Of Veterinary Internal Medicine: Diseases Of The Dog And The Cat. 8. ed. Missouri: Elsevier, 2017. cap. 335, p. 4870-4898. ISBN 9780323312110.


3. DORSCH, R. et al. Feline lower urinary tract disease in a German cat population. Tierärztliche Praxis Kleintiere, v. 42, n. 4, p. 1-9, 2014.


4. FONSECA, Ana Paula Barros. Doença do Trato Urinário Inferior dos Felinos: Estudo Clínico e Laboratorial. 2019. 50 p. Dissertação (Mestre em Ciência Animal) - Universidade Federal do Piauí, PI, 2019.


5. FORRESTER, S. Dru; TOWELL, Todd L. Feline Idiopathic Cystitis. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 45, n. 4, p. 783-806, 2015.


6. GALVÃO, André Luiz Batista et al. OBSTRUÇÃO URETRAL EM GATOS MACHOS: REVISÃO LITERÁRIA. Acta Veterinaria Brasilica, v. 4, n. 1, p. 1-6, 2010.


7. LABATO, Mary Anna. Lower Urinary Tract Urolithiasis: Feline. In: ETTINGER, Stephen J. Textbook Of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. Missouri: Elsevier, 2017. cap. 332, p. 4837-4848. ISBN 9780323312110.


8. LEW-KOJRYS, S. et al. Evaluation of clinical signs and causes of lower urinary tract disease in Polish cats. Veterinarni Medicina, v. 62, n. 07, p. 386–393, 2017.


9. OLIVEIRA, J. L. P. Uretrostomia perineal em felinos: revisão. Clín. Vet.. v. 4, p. 38-42, 1999.


10. PAULUK, Simone. Obstrução Uretral em Felinos. Orientadora: Rosangela Locatelli Dittrich. 2008. 21 p. Monografia (Especialização Latu sensu em Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais) - Universidade Castelo Branco, Curitiba, 2008.


11. ROSA, Veruska Martins et al. Obstrução Uretral em Felinos. In: Encontro Internacional de Produção Científica Cesumar, 7, 2011, Maringá. Anais eletrônicos. Maringá: CESUMAR, 2011.


12. SAMPAIO, Keytyanne de Oliveira et al. Obstrução Uretral em Gatos. Veterinária e Zootecnia, Pernambuco, v. 27, p. 001-011, 2020.


13. SEGEV, Gilad et al. Urethral obstruction in cats: Predisposing factors, clinical, clinicopathological characteristics and prognosis. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 13, p. 101-108, 2011.


14. SERAKIDES, Rogéria; SILVA, Juneo Freitas. Sistema Urinário. In: SANTOS, Renato de Lima; ALESSI, Antonio Carlos. Patologia Veterinária. 2. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016. cap. 5, p. 460-532. ISBN 978­85­277­2924­6.


15. SÆVIK, Bente K et al. Causes of lower urinary tract disease in Norwegian cats. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 13, p. 410-417, 2011.


16. ZANOTTO, Bruna Meus. Abordagem Emergencial do Gato com Obstrução Uretral. Orientadora: Fernanda Vieira Amorim da Costa. 2016. 50 p. Monografia (Bacharelado em Medicina Veterinária) - Faculdade de Veterinária - UFRGS, Porto Alegre, 2016.


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