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Resistência antimicrobiana em animais de companhia

Isabela Pádua Zanon 1

Jordana Almeida Santana 2

1 Aluna de Iniciação Científica no Laboratório de Bacterioses e Pesquisa (EV-UFMG)

2 Doutoranda em Ciência Animal (EV-UFMG)


O uso inapropriado de antimicrobianos na medicina humana e veterinária propiciou a seleção de bactérias resistentes e a ascensão da resistência. Na prática clínica em seres humanos, o uso de antimicrobianos para tratamento de infecções teve seu início na década de 1940 (KOSTYANEV et al., 2017). Por sua vez, na medicina veterinária a introdução desses medicamentos iniciou-se na década de 1950, sendo direcionados para a prevenção de doenças, utilizados como promotores de crescimento em animais de produção e na terapia individual, no caso dos animais de companhia. Desde então, observa-se o uso indiscriminado dessas drogas, acarretando implicações no âmbito da saúde pública.

Cada vez mais, os cães e os gatos estão sendo tratados como membros da família.Do ponto de vista epidemiológico isso é muito relevante, pois em função desse íntimo contato com os seres humanos, os animais de companhiapodem colaborar para a disseminação da resistência antimicrobiana. Na última década, bactérias multirresistentes surgiram em animais de estimação, representando um desafio devido à transmissão desses patógenos em ambientes veterinários (JESSEN et al., 2019). Nesse contexto, destacam-se Escherichia coli produtora de beta-lactamase de espectro estendido (ESBL), Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) e Staphylococcus pseudintermedius resistente à meticilina (MRSP) (CANTAS et al., 2013).Esses patógenos são resistentes a todos os beta-lactâmicos, sendo também frequentemente resistentes a outros grupos de antimicrobianos. Dessa forma, representam uma ameaça global à saúde animal em função da ampliação do risco de falhas no tratamento (JESSEN et al., 2019).

A sigla ESBL remete às enzimas produzidas por bactérias gram negativas, capazes de hidrolisar o anel beta-lactâmico dos antimicrobianos, como a penicilina e a cefalosporina, inativando-os (WALTHER, 2017). Em relação aos animais de companhia, essas enzimas estão sobretudo associadas à E. coli. Além do padrão de resistência associado aos beta-lactâmicos, os isolados produtores de ESBL podem também apresentar multirresistência a outras classes de antimicrobianos, incluindo sulfametoxazol/trimetoprim e fluoroquinolonas (JESSEN et al., 2019).É justamente nesse contexto que se insere o desafio terapêutico, pois E. coli produtora de ESBL é isolada do trato urinário de modo frequente e, os antibióticos citados anteriormente,são os mais utilizados para infecções desse sítio.

Apesar de originalmente ser considerado um patógeno nosocomial, as infecções por MRSA entre indivíduos saudáveis da comunidade, emergiram na década de 1990 (PATERSON, 2014). Além de sua importância como patógeno em humanos, S. aureus – incluindo MRSA –, pode colonizar e infectar animais de companhia, sendo relevante por poderem atuar como reservatórios para a infecção zoonótica de humanos.Estirpes MRSA são portadoras do gene mecA/mecC, responsável pela geração de resistência aos beta-lactâmicos de forma geral (PATERSON, 2014) e a detecção molecular deste gene é crucial para direcionar o tratamento adequado e também para a vigilância epidemiológica destas bactérias.

A resistência à meticilina descrita a partir da disseminação de MRSA, também tem sido cada vez mais detectada entre isolados de Staphylococcus caninos, especialmente S. pseudintermedius (LORD et al., 2022).MRSP refere-se a uma cepa de S. pseudintermedius que adquiriu o gene de resistência à meticilina: mecA/mecC.Esse patógeno é um comensal da pele e mucosa canina, sendo comumente associado aos casos de otite e piodermite. Nesse cenário, a ocorrência de resistência à meticilina entre os isolados de Staphylococcus spp. de cães apresenta implicações clínicas importantes, uma vez que as infecções podem necessitar de tratamento com antimicrobianos de alta prioridade para a saúde humana (LORD et al., 2022).Em continuidade, determinados clones de MRSP, além da resistência aos beta-lactâmicos, apresentam também resistência a outros antimicrobianos, como lincosamidas, fluoroquinolonas, sulfametoxazol/trimetoprim, macrolídeos, tetraciclinas e gentamicina(JESSEN et al., 2019).

Diante de tudo que foi descrito, verifica-se que a presença de MRSA, MRSP e E. coli produtora de ESBLapresenta grande significado em função do risco de transmissão e infecção demédicos veterinários e tutores. A disseminação dessas bactérias multirresistentes requer atenção, sendo crucial o monitoramento microbiológico e o uso racional de antimicrobianos na prática clínica. A escolha do antimicrobiano deve ser guiada pelo teste de sensibilidade e pelo tipo de infecção. Apesar de existirem vários métodos laboratoriais para medir a susceptibilidade in vitro de bactérias aos antimicrobianos, a técnica de disco-difusão em ágar, popularmente denominada de antibiograma, é a mais comumente utilizada, devido às vantagens de ser um procedimento simples, barato e de fácil execução quando comparado com outros.Após medir os halos gerados por meio da técnica, é realizada a interpretação por meio de critérios estabelecidos pelo CLSI (Clinical and Laboratory Standards Institute), específicos para a bactéria em questão (QUINN et al., 1994). Desse modo, a partir do resultado qualitativo fornecido (sensível, resistente ou intermediário) é possível direcionar a escolha terapêutica.

Caso medidas não sejam tomadas, estima-se que futuramente tenha-se mais pessoas morrendo por bactérias multirresistentes do que por câncer. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2050, mais de 10 milhões de mortes serão causadas por bactérias resistentes a antibióticos (KOSTYANEV et al., 2017). É preciso racionalizar o uso de antimicrobianos na prática clínica. Nesse contexto, o papel do médico veterinário é significativo, especialmente com relação aos animais de companhia, que apresentam íntimo contato com os seres humanos, contribuindo na disseminação da resistência antimicrobiana.Aproximadamente 2/3 do total de antimicrobianos utilizados no mundo são empregados por médicos veterinários, o que demonstra que o papel desse profissional no uso racional de antimicrobianos é considerável.



REFERÊNCIAS:

1. CANTAS, Leon et al. A brief multi-disciplinary review on antimicrobial resistance in medicine and its linkage to the global environmental microbiota. Frontiers in Microbiology, v. 4, p. 96, 2013.

2. KOSTYANEV, Tomislav; CAN, Füsun. The global crisis of antimicrobial resistance. In: Antimicrobial Stewardship. Academic Press, 2017. p. 3-12.

3. L.R. Jessen, P.P. Damborg, A. Spohr, T.M. Sørensen, R. Langhorn, S.K. Goericke-Pesch, G. Houser, J. Willesen, M. Schjærff, T. Eriksen, V.F. Jensen, L. Guardabassi. Antibiotic Use Guidelines for Companion Animal Practice (2nd ed.). The Danish Small Animal Veterinary Association, SvHKS, 2019.

4. LORD, Jennifer et al. Patterns of antimicrobial, multidrug and methicillin resistance among Staphylococcus spp. isolated from canine specimens submitted to a diagnostic laboratory in Tennessee, USA: a descriptive study. BMC Veterinary Research, v. 18, n. 1, p. 1-16, 2022.

5. PATERSON, Gavin K.; HARRISON, Ewan M.; HOLMES, Mark A. The emergence of mecC methicillin-resistant Staphylococcus aureus. Trends in microbiology, v. 22, n. 1, p. 42-47, 2014.

6. QUINN, P. J. et al. Clinical Veterinary Microbiology. 1ª edição. London (United Kingdom): Elsevier Limited, 1994.

7. WALTHER, Birgit; TEDIN, Karsten; LÜBKE-BECKER, Antina. Multidrug-resistant opportunistic pathogens challenging veterinary infection control. Veterinary microbiology, v. 200, p. 71-78, 2017.



















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