RETROVIROSES FELINAS

Atualizado: Ago 6


Ana Carolina Nascimento Moreira


Os vírus da leucemia felina (FeLV) e da imunodeficiência felina (FIV) se destacam por estarem entre os principais causadores de doenças infecciosas em gatos. Ambos são retrovírus de caráter não zoonótico, ou seja, acometem apenas felídeos. São vírus encontrados em todo mundo, apresentam elevada morbidade e significativa mortalidade, possuem alta prevalência no Brasil, sendo de extrema importância a realização de testes diagnósticos e segregação de animais positivos.

O FeLV, foi descrito pela primeira vez em 1964, pertence à família Retroviridae, subfamília Oncovirinae, gênero Gammaretrovirus, possui envelope lipoproteico e é constituído por material genético RNA fita simples, além de apresentar em sua composição a enzima transcriptase reversa (RT) que o transcreve em DNA (provírus) permitindo que seja integrado ao genoma do hospedeiro. É transmitido por contato direto, por meio de fluidos corporais, incluindo a saliva, secreções nasais, leite, urina e fezes. A transmissão ocorre pelo contato próximo, com transmissão vertical ou horizontal, seja ela entre mães e seus filhotes ou animais que compartilham o mesmo ambiente. Gatos jovens apresentam maior risco de infecção, no entanto alguns estudos demonstraram infecção viral em adultos.

A principal rota de transmissão é oronasal. Após a entrada no organismo a partícula viral afeta linfócitos B e monócitos, presentes na orofaringe, realiza a fusão com o hospedeiro e, com auxílio da enzima transcriptase reversa transcreve o RNA viral em DNA. Este, por sua vez, se insere no DNA celular e novas proteínas com genoma viral são sintetizadas com o aparato celular do hospedeiro e liberadas no organismo. Existem seis fases de infecção e quatro tipos de manifestação clínica.

A infecção por FeLV foi redefinida com base em testes de diagnóstico molecular. Agora é classificada em infecção focal ou atípica, abortiva (semelhante ao antigo status de gatos regressores), infecção regressiva (comparável a anterior classificação de infecção latente, como ou sem viremia transitória) e progressiva que se enquadra na antiga viremia persistente), sendo provável que a maior parte dos gatos desenvolvam infecções do tipo abortiva, mas a resposta imunológica pode ser comprometida por estresse, presença de comorbidades e carga viral. Não são apenas gatos com infecção progressiva que transitam pelas fases iniciais de infecção, essa característica também pode ocorrer em animais que apresentam infecção regressiva, porém nestes animais a carga viral tende a diminuir com o passar do tempo.

Os gatos que apresentam todas as fases de infecção realizam viremia persistente com infecção progressiva. Após a exposição viral e replicação em tecidos linfóides locais, ocorre disseminação viral, com replicação em tecidos linfóides, medula óssea (predispondo a aplasia medular, citopenias, entre outras) e criptas intestinais. A segunda viremia periférica afeta neutrófilos e plaquetas e, na última fase de infecção o vírus está presente em células epiteliais, sendo encontrado na saliva, urina e secreção ocular. O tipo de infecção varia com a resposta imune do hospedeiro. Respostas imunes fortes levam a infecções abortivas, respostas variáveis infecções predispõem a infecções focais ou atípicas quando não há indícios de vírus circulante, mas existe FeLV nos tecidos. Animais com boa resposta imune tendem a apresentar infecção regressiva e nos casos de fraca ou resposta ausente ocorre infecção progressiva. Animais com infecção regressiva que passam por eventos de imunossupressão podem se tornar progressivos.

As manifestações clínicas são inespecíficas e, gatos com síndromes degenerativas tendem a apresentar, entre outras alterações, aplasia medular, trombocitopenia e estarem predispostos a infecções oportunistas e doenças imunomediadas. Animais com síndromes proliferativas podem apresentar linfoma e leucemia. O diagnóstico pode ser realizado com auxílio de testes rápidos que detectam antígeno viral ou PCR de DNA proviral ou RNA viral, a reação de imunofluorescência direta para pesquisa de antígeno viral também pode ser realizada utilizando-se amostras de sangue ou medula óssea. Os gatos devem ser testados 30 dias após um possível contato viral. O diagrama abaixo apresenta as possibilidades de resultados e sugestão de passos diagnósticos.



O FIV é um vírus RNA fita simples, pertencente a família Retroviridae, subfamília Orthoretrovirinae, gênero Lentivirinae, sendo morfologicamente semelhante ao vírus causador da síndrome da imunodeficiência humana. Assim como o FeLV possui um envelope lipídico e produz a enzima transcriptase reversa, inserindo seu material genético ao genoma do hospedeiro. Foram identificados cinco subtipos de FIV, denominados A, B, C, D, E, F, U-NZenv. Os subtipos A e B são identificados com maior frequência. Gatos FeLV são predispostos a infecção com FIV.

A principal via de transmissão é a inoculação viral ou de células infectadas com o vírus, presentes principalmente na saliva de animais infectados. O FIV já foi detectado na placenta, sêmen e leite, mas a mordedura ainda é o tipo de infecção mais comum. As taxas de prevalência viral variam, dependendo da região e estilo de vida do animal, logo gatos jovens semi-domiciliados ou de colônias são mais suscetíveis. O vírus replica-se em diferentes tipos celulares, incluindo linfócitos TCD4+ e TCD8+, linfócitos B, macrófagos e astrócitos.

Após a inoculação do vírus ocorre acometimento de linfócitos B, linfócitos T e macrófagos, nesta fase ocorre redução de células T CD4+, com inversão da razão CD4+:CD8+ que pode persistir por toda a vida do animal, existe alteração na síntese e liberação de citocinas e outras proteínas com disseminação viral que pode afetar tanto órgãos linfóides, quanto o sistema nervoso central. Após a fase inicial existe produção de anticorpos, supressão da carga viral com aumento nos níveis de células TCD8+, porém existe progressiva disfunção do sistema imune e qualquer episódio de imunossupressão é capaz de levar a aumento na viremia. Animais FIV, por apresentarem disfunção imunológica progressiva, são mais predispostos a infecções crônicas e recorrentes e as neoplasias são cinco vezes mais comuns quando comparado a gatos FIV negativo. O vírus produz uma infecção persistente da qual os gatos não se recuperam.

As manifestações clínicas são inespecíficas, e podem não ocorrer em portadores subclínicos, alterações neurológicas, como convulsão, alteração de comportamento ou anisocoria, assim como sinais clínicos de infecções secundárias oportunistas e neoplasias, podem ocorrer. O diagnóstico pode ser realizado pela detecção de anticorpos específicos contra FIV com sangue total, soro ou palsma, por testes rápidos. A maioria dos gatos produz anticorpos 60 dias após a infecção, mas filhotes podem apresentar anticorpos maternos detectáveis derivados do colostro por vários meses, sendo ideal a realização de testes após estes completarem seis meses. A PCR, assim como na FeLV pode não apresentar um resultado confiável e preciso, devido a variação da sequência genética a ser analisada e baixa carga viral. Alguns gatos em fase de infecção terminal podem apresentar resultado sorológico negativo devido a alta carga viral que sequestra anticorpos para formar imunocomplexos. Animais vacinados para FIV (Fel-O-Vax FIV®, não disponível no Brasil) são positivos no teste rápido. Resultados falso-negativos podem ocorrer em todos os tipos de testes, logo animais com alto risco de infecção e manifestação clínica devem ser retestados, isolados e acompanhados.

Não existe tratamento específico para ambas afecções virais, sendo realizado tratamento suporte e de doenças concomitantes. A transmissão por fômites é importante principalmente nos casos de FeLV e tanto a FIV quanto a FeLV são vírus suscetíveis a desinfetantes comuns e, quando estão fora do hospedeiro sobrevivem por poucas horas no ambiente, principalmente em locais secos. A limpeza de comedouros e bandeja sanitária com água fervente inativa o vírus. É importante evitar o consumo de alimentos crus, impedindo a infecção com patógenos oportunistas, domiciliar todos os gatos e segregar animais sabidamente positivos, além de realização de testes diagnósticos, principalmente em animais semi-domiciliados e de locais mult-cat. Não existem evidências científicas do uso de imunoestimulantes e o uso de antivirais por médicos veterinários é proibido no Brasil. Filhotes, animais negativos com potencial risco, gatos com acesso a rua ou de colônias (mais que três animais) devem ser vacinados contra FeLV, de acordo com protocolo estabelecido por médico veterinário. Gatos FeLV com infecção progressiva não se beneficiam com a vacinação, devendo, obrigatoriamente, serem vacinados com vacina tríplice. A vacina contra FIV não é recomendada pela associação americana de clínicos de felinos. Gatos doadores de sangue devem apresentar sorologias negativas para FIV e FeLV, além de PCR proviral de FeLV, também negativo.

Protocolo inicial de vacinação para filhotes e gatos nunca vacinados:

· Administrar as vacinas FeLV para todos os animais de risco (semi-domiciliados, de aglomerados ou em contato direto com gatos FeLV) e todos os filhotes até 1 ano.

· Testar todos os gatos, independente da idade (teste rápido e PCR proviral) antes da vacinação.

· Iniciar a primovacinação com 8 semanas, finalizando o protocolo vacinal com 16 semanas e administrar reforço após 12 meses da primeira dose.

Protocolo vacinal para gatos a partir de 2 anos:

Vacinação não recomendada em gatos sem risco de exposição:

· Gatos de domicílios telados, sem acesso à rua, sem exposição e sem contato com outros gatos (apenas um gato na casa ou que convivem com animais sabidamente negativos para FeLV);

· Gatos sem exposição a animais infectados por FeLV ou com status desconhecido.

Vacinar anualmente gatos com elevado risco de exposição:

· Gatos com livre acesso à rua, animais semi-domiciliados ou de vida livre.

· Animais de aglomerados;

· Gatos em contato com animais infectados por FeLV ou com status diagnóstico desconhecido.

Revacinar a cada 2 anos animais com baixo risco de exposição:

· Animais com acesso limitado à rua e baixa possibilidade de exposição a gatos sem diagnóstico confirmado.

· Gatos sem histórico de agressões (exemplo, mordidas e brigas entre gatos).

REFERÊNCIAS:

HAYWARD, J.J., RODRIGO, A.G. Recombination in feline immunodeficiency virus from feral and companion domestic cats. J Virol. 5, p. 76. 2008.

LAPPIN, M.R. Enfermidades virais polissistêmicas in: NELSON, R. W.; COUTO, C. G. Medicina interna de pequenos animais. Rio de Janeiro, RJ: Elsevier. p.1347-1353. 2015.

LITTLE, S.; LEVY, J.; HARTMANN, K.; HOFMANN-LEHMANN, R.; HOSIE, M.; OLAH, G.; St DENIS, K. AAFP Feline Retrovirus Testing and Management Guidelines. JFMS 22, p. 5-30. 2020.

SODORA DL, SHPAER EG, KITCHELL BE, DOW SW, HOOVER EA, MULLINS JI. Identification of three feline immunodeficiency virus (FIV) env gene subtypes and comparison of FIV and Human immunodeficiency virus type 1 evolutionary patterns. J Virol. 68, p. 2230–2238. 1994.

WESTMAN, M.E.; MALIK, R.; NORRIS, J.M. Diagnosing feline immunodeficiency virus (FIV) and feline leukaemia virus (FeLV) infection: an update for clinicians. Aust J. Vet 97 (3), p. 47-55. 2019.

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