Síndrome de Burnout na Medicina Veterinária


Lucas Queiroz dos Santos

Residente em Clínica Médica de Animais de Companhia do Hospital

Veterinário da UFMG

O termo burnout significa queimado, isto é, estafado ou esgotado. A Síndrome de Burnout é caracterizada como um distúrbio crônico relacionado a um estado de esgotamento físico e emocional do qual a causa está interligada a vida profissional (GABRIEL, 2018). Segundo Barbosa et al. (2014), profissionais que lidam com animais, enfermos e pessoas em risco de morte estão mais suscetíveis a desenvolver distúrbios de saúde como burnout e podem repercutir negativamente no serviço aos clientes e à sua equipe de trabalho. Diversas razões podem contribuir para o acometimento de profissionais em Medicina Veterinária, sejam elas condições de trabalho desfavoráveis, relações interpessoais difíceis, ausência de foco, excesso de empatia e compaixão com os pacientes e tutores, eutanásia legalizada, sentimento de culpa, insegurança e medo de errar (BARRETA e MEDEIROS, 2019).

Além do acometimento de profissionais, Hífen et al. (2006) citado por Barwaldt et al. (2020), observaram que 32% dos alunos do primeiro ano de graduação em Medicina Veterinária já apresentavam sinais clínicos de depressão e ansiedade elevada, dois fatores que contribuem para o desenvolvimento da Síndrome de Burnout. Estudantes que se dão bem durante a graduação, podem desenvolver a síndrome durante a carreira profissional, dado que a cobrança aumenta exponencialmente e o desafio interno ao indivíduo em acreditar que nunca será bom o suficiente pode ser fator complementar para o desenrolar da síndrome.

A síndrome é caracterizada por três dimensões, iniciando pelo desgaste emocional que se define por sensação de esgotamento, sentimento de frustração e tensão nos trabalhadores. A despersonalização é caracterizada pelo desenvolvimento de insensibilidade com o próximo, levando o profissional a tratar os pacientes, tutores e colegas da organização de maneira desumanizada, somando-se a baixa realização profissional, demonstrada por uma autoavaliação negativa, o que leva o profissional a sensação de insatisfação e infelicidade (CARLOTTO e PALAZZO, 2006).

No entanto, a Medicina Veterinária é a única área da saúde em que o profissional pode recomendar e realizar a eutanásia, sendo este procedimento mais um fator emocionalmente desgastante que pode predispor a síndrome (MEEHAN e BRADLEY, 2007).

Os recém-formados possuem o quadro intensificado, pois com pouca experiência e conhecimento para lidar com tais demandas, os jovens veterinários se dedicam ainda mais ao trabalho, em jornadas ainda mais longas, cursos e residência. Entender a necessidade do repouso e do ócio permite desfrutar com melhor qualidade os momentos não laborais, uma vez que oferecem à saúde mental a capacidade de “recarregar” sua energia e “desligar” das diversas tarefas do trabalho, contribuindo para o seu bem-estar.

Um dos fatores que intensificam o desenvolvimento da síndrome é a ansiedade, que é uma resposta de adaptação do organismo, propulsora do desempenho e com componentes fisiológicos e psicológicos (AMORIM e SIRGO, 1999). Assim, a ansiedade passa a ser patológica quando a intensidade, a frequência ou a duração da resposta não corresponde à situação que o desencadeia, ou quando não existe um objeto específico ao qual se direcione. Portanto, a classificação da ansiedade dependerá da situação, das características do indivíduo e da interpretação que ele faz da situação (OLIVEIRA e DUARTE, 2004).

Pessoas que exigem muito de si mesmas elevam sem perceber seus níveis de exigências para serem realizadas, sendo difícil se sentirem satisfeitas. Muitos profissionais notáveis estão entre os que mais sabotam sua saúde psíquica e seu prazer de viver para obter esses altos níveis de exigências (CURY, 2016). Em seus estudos Hansen et al. (2008), visualizaram que 14% dos médicos veterinários na Bélgica possuíam a síndrome do esgotamento profissional mesmo se considerando profissionais realizados.

Uma pessoa pode ter a capacidade de gerir várias pessoas, mas ao mesmo tempo gerir desastrosamente a sua mente, sendo refém do passado, sofrendo pelo futuro, cobrando excessivamente de si, supervalorizando detalhes, sendo hipersensível a críticas e rumores (CURY, 2016). O estresse crônico gerado a partir dessa cobrança excessiva leva a queda na capacidade de raciocínio, além de déficit na recuperação da saúde mental através do sono, pois, ainda que estejam dormindo, essas pessoas possuem uma intensa atividade cerebral, com incapacidade de repouso realizado pelo sistema nervoso autônomo, em que o inconsciente não consegue repousar e reestabelecer sua energia (LÓPEZ-MORALES, et al., 2007).

Segundo Barwaldt et al. (2020), cuidar da saúde mental é, acima de tudo, protegê-la. Entretanto, para que isso seja possível, é indispensável que controlar o estresse profissional seja prioridade em nossas vidas. Ademais, uma alimentação saudável e a prática de exercícios físicos também são importantes para o bem-estar.

REFERÊNCIAS:

AMORIM-GAUDÊNCIO, C.; SIRGO, A. Ansiedade aos exames: um problema atual. Psico., 30, p. 75-80, 1999.

BARBOSA, S. C.; SOUZA, S.; MOREIRA, J. S. Fadiga por compaixão como ameaça à qualidade de vida profissional em prestadores de serviços hospitalares. Rev. Psi: Org. e Trab., v. 14, n. 3, p. 315-323, 2014.

BARRETA, C.; MEDEIROS, M. G.; A síndrome de burnout na prática profissional na Medicina Veterinária e o conceito de felicidade. Sem. inic. cient. v. 1, p. 107-110, 2019.

BARWALDT, E. T.; PIÑEIRO, M. B. C.; CRUZ, D. B.; et al. Reflexos da sociedade e a síndrome de burnout na Medicina Veterinária: revisão de literatura. Braz. J. Hea. Rev., v. 3, n. 1, p. 2-14, 2020.

CARLOTTO, M. S.; PALAZZO, L. S. Síndrome de burnout e fatores associados: um estudo epidemiológico com professores. Cadernos de Saúde Pública, v. 22, n. 5, p. 1017-1026, 2006.

CURY, A. Ansiedade 2- auto-controle: Como controlar o estresse e manter o equilíbrio, 2016.

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