SARS-CoV-2 EM ANIMAIS DE COMPANHIA

Francielli Martins Souto - graduanda de Medicina Veterinária UFMG;

Cláudia Fideles Resende - doutoranda em Ciência Animal - RetroLab UFMG. A coronavirusdisease 2019 (COVID-19), provocada por SARS-CoV-2, iniciou-se em Wuhan (província de Hubei, China) no final de 2019 e se espalhou pelo mundo, sendo responsável por perdas econômicas mundiais e grande impacto na saúde pública, com maior número de mortes quando comparado à síndrome respiratória aguda grave (SARS) e a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS), causadas por SARS-CoV e MERS-CoV, respectivamente (SalajeghehTazerji, et al. 2020). A importância dos animais de companhia na epidemiologia da infecção não está clara, mas demonstra o quanto o conceito de “Saúde Única” (One Health) é relevante, devido à interconexão entre saúde humana, animal e meio-ambiente. A família Coronaviridaepossui duas subfamílias: Letovirinae e Orthocoronavirinae. A subfamília Orthocoronavirinae é subdividida em quatro gêneros: alphacoronavirus, betacoronavirus, gammacoronavirusedeltacoronavirus, que abrigam diversas espécies de vírus, que infectam diferentes hospedeiros, incluindo mamíferos e aves (Figura 1).



Figura 1: Gêneros da subfamília Orthocoronavirinae e suas diferentes espécies. Fonte: Sharun, et al. 2020.

Há fortes indícios de que SARS-CoV-2, um betacoronavirus, tenha surgido dos morcegos, passando por um processo de adaptação que permitiu que este vírus infectasse um novo hospedeiro. Segundo Morais (2020), devido ao contato entre humanos e morcegos ser incomum, presumivelmente, uma espécie animal intermediária pode estar envolvida na epidemiologia da doença, mas ainda permanece desconhecida. Há relatos de infecção natural em cães, gatos e visons em diversos países (OIE, 2020) e estudos experimentais demonstraram que SARS-CoV-2 é capaz de se replicar com eficiência em gatos e furões, enquanto cães possuem menor suscetibilidade, e porcos, galinhas e patos não são suscetíveis a infecção por este coronavírus (Shi, et al. 2020; Bosco-Lauth, et al. 2020). Apesar de existir outros vírus da família Coronaviridae que afetam cães, gatos e outras espécies, são vírus diferentes de SARS-CoV-2. Dessa forma, as vacinas existentes contra os coronavírus canino (e outros) não previnem infecção por SARS-CoV-2, para o qual ainda não existe vacina disponível. Todavia, estudos recentes mostraram que gatos e furões, em condições experimentais, podem se infectar e transmitir SARS-CoV-2 por aerossóis para animais não infectados (Shi, et al. 2020), portanto é importante também o distanciamento entre animais. Há raros relatos de transmissão de humanos sabidamente positivos para seus animais, no entanto, o contrário não foi observado. Ou seja, não há relatos de transmissão de animais para humanos. Por isso, o risco de os animais propagarem SARS-CoV-2 para as pessoas é considerado baixo. Segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), os sinais clínicos em animais positivos para COVID-19 podem variar entre sintomas respiratórios e gastrointestinais, geralmente discretos ou ausentes. Os sinais são inespecíficos (febre, dificuldade respiratória, vômito, diarréia), mas importantes de serem observados em animais que têm ou tiveram contato com humanos que possuem suspeitas ou confirmação de infecção por COVID-19. O CDC divulgou medidas a serem adotadas quando o tutor for diagnosticado positivo, como: pedir para um familiar cuidar do animal e assim evitar que ele também se infecte, mas em caso de não haver essa possibilidade, evitar contato próximo com o pet e higienizar as mãos antes e depois de interagir com ele e sempre usar máscara, assim como é feito para proteger outros membros da família. Outras medidas recomendadas pelo CDC são: não limpar ou dar banhos nos animais com desinfetantes químicos, álcool, água oxigenada ou quaisquer outros produtos não aprovados para uso em animais; restringir interação deles com pessoas fora de sua casa; manter distanciamento com outros animais e pessoas, evitando locais públicos e aglomerações; não colocar máscaras nos animais de estimação, pois pode prejudicá-los; higienizar as mãos antes e após manusear os animais, a comida, o lixo ou os suprimentos e praticar uma boa higiene animal, limpando-os adequadamente. A identificação de positividade de COVID-19 em animais pelo teste não é recomendada. Em caso de suspeita, o contato com o veterinário é primordial no sentido de orientar qual a melhor conduta a ser realizada, evitar o trânsito do animal e ser avaliado os sinais clínicos e histórico da exposição aos fatores de risco, como contato com pessoa suspeita de positividade de COVID-19 ou sabidamente positivo. Dessa forma, o veterinário obrigatoriamente deverá entrar em contato com serviço de saúde pública da sua região para saber os procedimentos das próximas etapas. O que podemos concluir disso tudo? Alguns animais são suscetíveis à infecção por SARS-CoV-2, principalmente gatos e furões, porém há poucos relatos de infecção natural. A transmissão entre gatos e furões só foi demonstrada experimentalmente e ainda não há evidências de que eles transmitam o vírus para os seres humanos, mas há indícios de que nós sejamos capazes de transmitir SARS-CoV-2 para os pets. Dessa forma, não existem motivos de desespero e os tutores não devem temer ou abandonar seus animais, eles necessitam somente dos nossos cuidados. Somos os únicos responsáveis pela saúde deles! O mais importante é a prevenção de todos nós, humanos e animais!

E se seu bichinho de estimação foi exposto ao SARS-CoV-2, respeite o isolamento social para evitar a disseminação da doença a outros, pois apesar do baixo risco de humanos serem infectados por contatos com animais positivos, há estudos que mostram a contaminação entre animais. Aguarde os 14 dias desde o último contato com pessoa suspeita ou positiva para voltar a rotina normal do seu animalzinho. Para mais informações sobre SARS-CoV-2 em animais, acesse o site do CDC no link: https://www.cdc.gov/ ou https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/community/veterinarians.html.

Referências bibliográficas:

1- CDC - Centers for Disease Control and Prevention.Interim Infection Prevention and Control Guidance for Veterinary Clinics Treating Companion Animals During the COVID-19 Response. Acessado em 27 de novembro de 2020. <https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/community/veterinarians.html>


2- MORAIS, H. A., DOS SANTOS A. P., DO NASCIMENTO N. C., et al.Natural Infection by SARS-CoV-2 in Companion Animals: A Review of Case Reports and Current Evidence of Their Role in the Epidemiology of COVID-19. Frontiers in Veterinary Science, vol. 7, p. 823, Out 2020.


3- SALAJEGHEH TAZERJI, S., et al.Transmission of severe acute respiratory syndrome coronavirus 2 (SARS-CoV-2) to animals: an updated review. Journal of Translational Medicine, vol. 18, no. 1, Set 2020.


4- SHI, J., WEN, Z., ZHONG, G., et al.Susceptibility of ferrets, cats, dogs, and other domesticated animals to SARS–coronavirus 2. Science, Vol. 368, pp. 1016-1020, Mai 2020.


5- SHARUN, K., SIRCAR, S., MALIK Y. S., et al.How close is SARS-CoV-2 to canine and feline coronaviruses?.JournalofSmall Animal Practice, vol 61, Ago 2020.

12 visualizações0 comentário
 

GEPA UFMG 

  • Facebook
  • Instagram

©2020 por Jéssica Cruz e GEPA UFMG Orgulhosamente criado com Wix.com